Casa é demolida em cima de moradores no Centro. Operação de guerra sob pretexto de “combate às drogas”

Sergio A. Garcia Jr.*, AND nº 189

No dia 21 de maio, uma ação conjunta da prefeitura do município de São Paulo (João Dória/PSDB) e do governo do estado de São Paulo (Geraldo Alckmin/PSDB), usando dos aparatos de repressão e opressão como Polícia Militar, Polícia Civil e Guarda Civil Metropolitana, invadiu o “fluxo” (local de circulação dos usuários de drogas) na região da Luz em São Paulo, a chamada “Cracolândia”. Local que foi palco de várias tentativas falhas de extinção do tráfico e do uso de drogas sempre de forma repressiva, desrespeitosa e violenta, no sentido do combate às drogas.

Usando de muita violência, os gerentes municipal e estadual de São Paulo bradaram aos canais de televisão de que nesse dia seria marcado o fim da “Cracolândia”. Mais uma vez, usando as forças policiais e violando os direitos mais básicos das pessoas, as quais esses mesmos gerentes se esqueceram ou nunca souberam que existiam e vivem neste local.

O que se concretizou nesse dia foi a substituição de um projeto do gerenciamento que buscava cuidar de pessoas em sofrimento por conta do uso abusivo de álcool e outras drogas em situação de extrema vulnerabilidade – projeto este já débil pela falta de investimentos e incentivos do Estado –, por uma proposta já tentada e ultrapassada de “guerra às drogas”, no qual as intervenções de saúde são baseadas na exclusão e mitigação de direitos. Tudo isso em detrimento de um projeto de Redução de Danos –  inovador no país –  baseado no cuidado em liberdade, do tratamento e atenção dignas oferecidas a essas pessoas que vivem na região da Luz e sempre colocadas somente como sombras pelas políticas públicas e especulação imobiliária.

O que se via momentos após a desmedida intervenção na região da Luz eram tratores demolindo prédios com pessoas dentro, pensões habitadas por pessoas e famílias que muitas vezes não mantinham qualquer relação com as práticas locais, paredes caindo sobre pessoas e ferindo-as, crianças e adultos nas ruas esperando qualquer suporte que não veio. Carros de emissoras de televisão circulando sem qualquer barreira, mas trabalhadores da saúde sendo questionados por policiais a qualquer passo dado. Agentes de saúde e enfermeiras que buscavam manter o cuidado a seus pacientes que neste dia não eram encontrados pois se dispersaram pelo centro de São Paulo.

Intervenções violentas com o uso desmedido da força policial são práticas comuns no “governo” do estado de São Paulo. Vale lembrar das criminosas agressões policiais contra os jovens que foram às ruas em defesa da educação, por melhores condições nas escolas e contra a “reorganização” do sistema de ensino que fecharia vários colégios. O governo os tratou também com bombas. Práticas fascistas parecem que não sensibilizam mais a população do Estado que já naturalizou a violência contra os mais pobres, que se sensibilizam com animais de rua, mas não com moradores de rua que passam frio durante o duro inverno. Isso se pôde ver também no domingo, dia 21/05, um dia chuvoso no qual pessoas que necessitam de atenção em saúde, debilitadas pelo uso de drogas, foram colocadas pra fora de suas casas e jogadas na rua, se alojando sob o telhado de um posto de gasolina em funcionamento.

A barbárie é apoiada por uma relevante parcela da população e veiculada nos monopólios de imprensa pelos “governos” como um sucesso, numa clara demonstração que mistura perversidade e vaidade com intuito de autopromoção.

Usuários de drogas são a todo momento parasitados por interesses do capital, pelo tráfico, pelos gerenciamentos que contratam instituições privadas para internações forçadas e de longa permanência, sempre utilizando de muita violência também. Essas pessoas que circulam no centro de São Paulo movimentam grandes mercados: o da droga e o das internações.

O Projeto “São Paulo de Braços Abertos” foi dado como encerrado neste dia (21). O “DBA” ou “De Braços Abertos” foi um projeto que não chegou a ser implementado como Política Pública, idealizado por muitos profissionais do campo da Saúde Mental, entre eles o militante histórico da Luta Antimanicomial Antonio Lancetti, psicanalista que participou do processo de abertura e desinstitucionalização dos moradores do Hospital Anchieta, em Santos (SP), um marco na Reforma Psiquiátrica brasileira, por ter sido o primeiro manicômio a ser fechado.

O “DBA” vinha sendo construído a cada dia, repensado a cada proposta, e, a partir dos desafios surgidos no cuidado às pessoas em sofrimento por conta do uso abusivo de álcool e outras drogas, caracterizava-se basicamente na oferta de moradia, alimentação, trabalho e assistência à saúde para os frequentadores da “Cracolândia”.

A forma de acabar com o projeto e com o “fluxo” é bastante conhecida pela população de São Paulo e, em especial, pelos moradores daquela região: repressão policial, bombas de efeito moral, balas de borracha, cassetetes. Assim, ao invés do “DBA”, o Estado preferiu as costumeiras bombas, repressão e tratores, sem qualquer proposta de atenção à saúde das pessoas que frequentam a região da Luz.

Muito sofrimento foi infringido às pessoas, que perderam seus poucos pertences nessa ação desmedida com um aparato policial de “um pra um” (um policial para cada frequentador do “fluxo”), além de trabalhadores desolados por verem seus trabalhos irem por água abaixo, trabalho baseado na criação de vínculos sendo substituído por propostas de internações forçadas e de longa permanência em detrimento do cuidado no território e em liberdade. Sai a proposta de Redução de Danos e no lugar surge uma outra proposta higienista, canalha e mimada, que se baseia na “Produção de Danos” aos mais pobres.

São Paulo resiste!

O DBA resiste!


* Psicólogo, Membro da RENILA (Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial) e trabalhador do Projeto “De Braços Abertos”.