Em sepultamento coletivo familiares se despediram das vítimas da Chacina em Pau D’ Arco

Redação de AND

Na semana de 27/05 a 02/06 a reportagem de A Nova Democracia foi até Pau D’Arco (PA). Menos de 7 dias após a odiosa chacina promovida pela polícia de Jatene/PSDB que executou 10 camponeses a mando do latifúndio, acompanhamos a delegação da Associação Brasileira de Advogados do Povo até aquela região. Entrevistamos familiares das vítimas, advogados populares e camponeses em luta pela terra, acompanhamos audiências sobre o caso e fomos até a fazenda Santa Lúcia, local do massacre.

Durante a semana que se segue publicaremos em nosso Blog, conteúdo exclusivo de denúncia sobre a Chacina de Pau D’Arco, resultado de nossa visita à região. E na próxima edição impressa do jornal forneceremos aos nossos leitores uma matéria especial sobre o crime. Estamos realizando também a transcrição de entrevistas e prosseguiremos publicando o conteúdo de nossa reportagem nos próximos dias.

1º Dia – Chegada a Marabá e acontecimentos anteriores

A equipe de AND desembarcou em Marabá – 684 km de Belém e 426 km de Pau D’Arco – no dia 27/05.Era grande o clima de tensão e tentativas de intimidação por parte do latifúndio contra camponeses e os que se propunham a denunciar o crime.

Camponeses em luta pela terra na região e advogados conversaram com nossos cinegrafistas.Os corpos dos camponeses assassinados haviam sido enterrados na manhã anterior (26) em Redenção apresentavam sinais claros de execução.

Denúncias de familiares davam conta ainda de que os corpos dos camponeses enviados para perícia em Marabá e Parauapebas (25) não haviam sido transportados nem mantidos acondicionados em condições devidas de conservação, fato que impediu às famílias das vítimas de realizarem o velório. Os corpos tiveram de ser imediatamente enterrados pois estavam em estado avançado de decomposição. As famílias receberam os corpos apodrecidos em sacos, cada um com dois corpos.

Familiares manifestaram indignação frente a situação ultrajante, que deixou patente o desrespeito do velho Estado. Isso tudo frente à todos os crimes brutais cometidos pelas próprias forças de policiais.

Advogados relataram também que em dado momento, os órgãos do velho Estado chegaram a afirmar que as famílias teriam de pagar pelo traslado das vítimas de Marabá para Pau D’Arco. Fato este que, por pressão dos advogados, foi prontamente rechaçado.

A anuência do velho Estado à ação criminosa do latifúndio na região também ficou evidente durante o enterro, ao qual também compareceram latifundiários e pistoleiros da região que, em ação intimidatória fotografaram as famílias e ainda por cima, fazendo uso de bebidas alcoólicas e embriagados, debochavam do crime na porta do cemitério.

2º Dia – Entrevista com familiares das vítimas da Chacina de Pau D’Arco

Depois de percorrido o trajeto de mais de 400km de Marabá até Pau D’Arco, a equipe de AND encontrou com as famílias das vítimas registrando a grave denúncia além de toda a dor e revolta.

Durante o trajeto, registramos o modo como o latifúndio se estende por toda a região exercendo como principal atividade a pecuária extensiva para corte e exportação, a pobreza do povo salta aos olhos, com total precarização da saúde, saneamento e estradas. [Possuidor do 5º maior rebanho bovino do país, os dados de 2005 mostram que 70% de toda produção de carne do Pará foi destinada para o exterior. Somado a isso, em 2015, estado do Pará ocupou a colocação de 3º  maior exportador do país, sendo o USA o principal destino.]

Rebanho do latifúndio. Foto: Ellan Lustosa/AND

Os camponeses entrevistados por nossa reportagem apontam que o bárbaro crime cometido por policiais teria sido uma ação coordenada por vários latifundiários da região com o claro objetivo de intimidar os camponeses em sua justa luta pela terra. Latifundiários da região, em conluio com os aparatos de repressão do velho estado, tem claros interesses financeiros nas terras para especulação e pecuária para exportação.

Testemunhas afirmam que policiais da Delegacia de Conflitos Agrários (DECA) ameaçaram várias vezes a presidente da Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Pau’D Arco, Jane Júlia de Oliveira, antes da matança, e ela foi uma das vítimas.

Acampamento Osmir Venuto – Pará Foto: Ellan Lustosa/AND