Em protesto contra assassinato de idoso por PMs moradores bloquearam a Avenida Leopoldo Bulhões

Em protesto contra assassinato de idoso por PMs moradores bloquearam a Avenida Leopoldo Bulhões

Patrick Granja e João Antônio, AND nº 187

Segundo levantamento feito pela reportagem de AND através do aplicativo OTT (Onde Tem Tiroteio), somente neste ano de 2017, até o fechamento da presente edição, o número de “conflitos” envolvendo ações policiais nas favelas da cidade do Rio de Janeiro já chegava a 1.435 registros.

Os dados revelam a dimensão da carnificina promovida pelo velho Estado, que move uma intensa e sangrenta guerra contra os pobres, na qual o “combate ao tráfico” não passa de uma justificativa fajuta para a intensificação do extermínio nessas regiões, já assoladas por incontáveis problemas sociais. Também dados divulgados pela Justiça Global revelam que somente nos meses de janeiro e fevereiro deste ano, 182 pessoas foram mortas decorrentes da ação da polícia no estado do Rio de Janeiro.

Escalada de assassinatos em Acari

No final de março e início de abril, as ações de extermínio da PM se intensificaram na cidade do Rio de Janeiro resultando em crimes que repercutiram pelo mundo e geraram comoção nacional, como o da execução da jovem de 13 anos, Maria Eduarda Alves da Conceição, dia 30 de março, no bairro de Acari, na Zona Norte do Rio. A menina estava no pátio da Escola Municipal Jornalista e Escritor Daniel Piza, onde cursava o 7º ano do ensino fundamental, quando foi assassinada com pelo menos três tiros de fuzil, calibre 762, sendo dois na parte de trás da cabeça.

Minutos depois, ainda em frente à escola, imagens registradas por moradores flagraram o momento em que policiais militares do 41º BPM executaram dois homens com disparos de fuzil do mesmo calibre que ceifou a vida de Maria Eduarda.

Os moradores covardemente executados foram identificadas como Alexandre dos Santos Albuquerque, de 38 anos, e Júlio César Ferreira de Jesus, de 22 anos. A irmã de Alexandre, Alessandra Albuquerque, indignada com a execução de seu irmão, relatou ainda que ele implorou por sua vida antes de ser morto.

— O que fizeram com meu irmão foi uma covardia. Não havia necessidade daquilo. Ele já estava ferido na perna. Ele estava junto com o pessoal correndo quando começou o tiroteio. Ele estava desesperado, como todo mundo na hora do tiroteio. Os moradores disseram que ele ainda implorou para que os policiais não atirassem, mas não adiantou. Polícia é um bicho sem coração que gosta de matar – denunciou Alessandra, indignada com a execução de seu irmão.

Revoltada, a população local, em justo ato de protesto, bloqueou a Avenida Brasil montando barricadas em chamas. A PM atacou a manifestação com bombas de efeito moral e foi prontamente respondida com rojões e pedras em resistência contra as agressões. Um caminhão foi incendiado.

Os PMs responsáveis pelo assassinato de Maria Eduarda estão envolvidos em outros 37 casos de “autos de resistência” – recurso técnico fajuto usado para legitimar o extermínio de pobres nas favelas da cidade, conforme já denunciamos em matéria de novembro de 2015, na edição nº 160 – fato  que comprova a continuada atuação desse grupo de extermínio contra o povo.

Nessa barbárie que está afundada a cidade e que se repete em diferentes proporções por todo país, o 41º BPM se apresenta como a expressão de uma política de Estado que se reproduz em diferentes medidas por todos os aparatos de repressão nas favelas e no campo, conduzindo uma guerra civil reacionária.

O massacre promovido pelo velho Estado na favela de Acari não parou por aí. Na noite de 3 de abril, apenas quatro dias depois do assassinato da jovem estudante Maria Eduarda, uma operação policial genocida exterminou mais uma jovem adolescente na comunidade. Segundo moradores, por volta das 22h, PMs invadiram a favela atirando contra os moradores e acertaram a jovem Hosana de Oliveira Sessassim, que também tinha 13 anos.

Minutos depois do crime, líderes comunitários e ativistas locais entraram em contato com a redação de AND denunciando que, no Hospital Municipal Ronaldo Gazola, para onde a menina foi levada, policiais não estavam permitindo que médicos e parentes se aproximassem de Hosana, ainda com vida. Às 23h30, médicos do hospital anunciaram a morte da menina.

A macabra lista de crimes da PM prosseguiu nos dias seguintes. Às 6h da manhã do dia 4, PMs da tropa de choque ocuparam novamente a favela de Acari. Até a tarde do mesmo dia, a redação de AND já havia recebido de moradores denúncias de agressões, torturas, invasões de casas, dentre outras violações cometidas por policiais contra a população.

Outras favelas da cidade também registraram bárbaros crimes resultados de operações policiais.

Crimes policiais em outras favelas da Zona Norte

Base da UPP incendiada por manifestantes após morte de mototaxista no Morro da Formiga

Base da UPP incendiada por manifestantes após morte de mototaxista no Morro da Formiga

No dia 28 de março, no Morro da Formiga bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio o jovem mototaxista Luis Fernando Martins Malaquías, 25 anos, foi executado durante uma operação policial. O rapaz, que trabalhava também como comerciário, levou sete tiros. Ele foi encaminhado ao Hospital do Andaraí, mas não resistiu aos ferimentos.

Na noite do homicídio, em resposta ao brutal assassinato, moradores realizaram um vigoroso protesto e confrontaram com a polícia nos acessos à favela. Uma das bases da UPP (Unidade de Polícia “Pacificadora”) foi incendiada como resultado da justa revolta popular. No dia seguinte (29), moradores também tomaram as ruas em um protesto que fechou a Rua Conde de Bonfim. E no dia 30 de março, moradores tomaram as ruas do Morro da Formiga em manifestação.

Moradores da favela Mandela 2 protestam após assassinato de idoso de 71 anos

Moradores da favela Mandela 2 protestam após assassinato de idoso de 71 anos

Em 2 de abril, três pessoas foram mortas no Morro dos Macacos, também na Zona Norte, após uma incursão da PM em um baile funk da comunidade.  

Já no dia 3 de abril, policiais da UPP balearam e mataram o idoso Evangelista Cordeiro da Silva, de 71 anos, na favela Mandela 2, no Complexo de Manguinhos. Revoltados, moradores da comunidade bloquearam a Avenida Leopoldo Bulhões. Policiais atiraram bombas de gás lacrimogêneo e foram respondidos pelas massas com pedras e garrafas. Para protegerem-se do ataque dos policiais, manifestantes incendiaram caçambas de lixo e as usaram como barricadas.

— Estava demorando morrer um inocente. Quase todo dia tem tiros. Estou cansado de passar e ficar na mira de pistola e fuzil. E de pedir a deus que dê tempo de chegar em casa sem sair um tiro – afirmou um morador que preferiu não se identificar.

No dia 12 de abril, um morador da Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, também Zona Norte do Rio, foi assassinado. O pedreiro Luiz dos Santos Silva, pai de 5 filhos, foi executado por policiais, segundo denúncias de parentes do operário e residentes da comunidade. Os familiares do operário relataram que Luiz foi atingido na nuca quando voltava da padaria, por volta das 6h30 da manhã. Em entrevista ao monopólio de imprensa, Elenice Fernandes, 42 anos, afirmou:

— A arma do meu primo era um pedaço de pão. É mais um que morre com um saco de pão na mão.

Após o odioso crime, moradores fizeram um protesto, interditando um trecho da Avenida Brás de Pina e seguiram em manifestação até a sede da UPP.