Publicamos a seguir a carta do povo Guarani e Kaiowá resultado do Encontro de um ano do Massacre de Caarapó, que resultou na morte do guerreiro Clodiodi. O evento foi realizado no dia 14 de Junho no tekohá Kunumi Poty Vera.  

14 DE JUNHO: ENCONTRO DE RESISTÊNCIA DOS GUARANI E KAIOWÁ COM OS APOIADORES, ORGANIZAÇÕES DE LUTA E MOVIMENTOS SOCIAIS           

            O dia 14 de junho é um dia de luto, mas também de muita luta! Há quase um ano a milícia ruralista atacou o povo Kaiowá e Guarani do Tekoha Guasu de Dourados Amambaipegua I, que resultou na morte do nosso guerreiro agente de saúde Clodiodi de Souza e deixou diversos feridos. A partir deste ano vamos relembrar anualmente o Massacre de Caarapó, com atividades de luta com os apoiadores, organizações de luta e movimentos sociais.

            O estado brasileiro em conjunto com os ruralistas das frentes de colonização, estão nos expulsando dos nossos Tekoha há mais de 100 anos. Nos últimos anos, com o avanço do agronegócio em nossas terras, a nossa situação tem piorado muito. O estado brasileiro nunca reconheceu de fato nosso direito à terra, anteriormente eles chamavam nossos territórios de “terras devolutas”, hoje eles chamam de propriedade privada.  

            A Constituição Federal de 1988 reconheceu nosso direito à terra e a nossa organização social de acordo com nossas línguas, crenças e tradições. Porém, pouco avançou na demarcação e reconhecimento de fato de nossos territórios. Por causa da falta de demarcação de nossas terras, nosso povo está morrendo e sendo assassinado friamente por aqueles que tomam nosso chão. Estamos conscientes há anos de que só a nossa luta vai garantir nosso Tekoha.

            No dia de hoje, a retomada Kunumi Poty Verá recebeu estudantes das escolas indígenas da aldeia Tey’i Kue, demonstrando a força da juventude Guarani Kaiowá na sua defesa da memória e da resistência. Juntos relembramos o 14 de junho, dia em que nossos mortos levantaram suas vozes novamente, com as novas sementes que germinam do sangue derramado, com a presença da Retomada Aty Jovem (RAJ) na homenagem do jovem que foi assassinado na retomada pelos latifundiários.

            Também discutimos o avanço da criminalização e da repressão aos povos indígenas e ao povo Guarani Kaiowá, que se intensifica cada vez mais após o Massacre de Caarapó. Nossos parentes são perseguidos na cidade, atacados, ameaçados, a exemplo de Alexandre Claro, que foi recém libertado. Clodiodi, por sua vez, não foi o único, e sabemos que não será o último, pois a luta não acaba. No dia 29 de maio, duas lideranças Guarani Kaiowá foram presas, torturadas e espancadas: Cesário e Otoniel. Com acusações forjadas, ambos tiveram sua liberdade retirada em um claro processo de perseguição política comandada pelos fazendeiros. Iremos nos levantar pela liberdade de Cesário, que permanece na Penitenciária Estadual de Dourados, sofrendo diversas formas de violência. Não iremos permitir que seu destino seja como o de Pedro Paim, assassinado na prisão de Juti. Chamamos a todos os movimentos para mobilização contra a criminalização dos Guarani Kaiowá, contra as práticas de tortura que vigoram nas prisões, e pela imediata liberdade de Cesário. Nossos parentes presos relatam que a polícia tem senhas para a tortura: quando fecham o cadeado e batem o cassetete nas grades, é sinal que quem chegou deve ser espancado.

            Jevy Jey Tekohape! Retomar o Tekoha! Nós indígenas jamais deixaremos barato a terra dos nossos antepassados e as que nós já vivemos, que hoje está sendo destruído pelo agronegócio. A única garantia de nossa sobrevivência e a continuidade do futuro de nossas crianças é a auto-demarcação de todas nossas terras!

            Neste momento em que o país se encontra, de grandes ataques aos direitos do povo brasileiro, onde se multiplicam massacres como o de Pau D’arco, Colniza, e contra o povo Gamela, assim como o recente assassinato de nossos irmãos Mapuche no Chile e Argentina, é mais do que necessário que os movimentos sociais se juntem com os povos indígenas para pensarmos ações de enfrentamento. A esperança é nossa luta. Finalizamos com a poesia de Cristiano Vera, em homenagem à memória de Clodiodi, lida durante o ato que relembrou o Massacre de Caarapó:

Homenagem a um amigo e parente que se foi

Clodiodi ou guri, como era conhecido, foi brutalmente assassinado por proprietários de terra frios, calculistas, que planejaram este triste e lamentável fim. 

Hoje completa um ano que você partiu.
A saudade aumenta a cada dia. Não temos palavras para descrever tamanha dor.

Guri era um jovem muito alegre, sorridente e por onde passava arrastava sorriso nas multidões.
Sua voz silenciou. Seu sorriso se calou.
Hoje seus amigos, parentes e comunidade choram pela sua perda,

uma perda tão repentina e tão precoce.
Você foi um grande amigo, sentimos muito pela sua partida.
Guerreiros não morrem, sempre estarão vivos na lembrança e na memória.
Guerreiros viram estrelas que nunca perdem o brilho e iluminam nossos caminhos.”
 

TERRA, VIDA, JUSTIÇA E DEMARCAÇÃO!

Povo Guarani Kaiowá

Dourados Amambai Peguá I