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Publicamos em nosso Blog a matéria publicada em AND nº 176, página 18, caderno de Nova Cultura.


Paula Spernau

Aproxima-se mais uma vez o circo da farsa eleitoral. Este ano ele ocorrerá em meio ao agravamento da crise política e moral do velho Estado brasileiro. No entanto, o descrédito do povo na mudança de sua situação objetiva através das eleições vem de muito antes e só cresce. Ele é proporcional ao agravamento da carestia de vida, dos ataques aos direitos do povo, da repressão e da brutal exploração.

Ressaltaremos aqui o papel da cultura popular como manifestação política viva das camadas populares que expressam todo seu rechaço às eleições reacionárias como instrumento das classes dominantes que decidem, de tempos em tempos, quem portará o bastão da opressão contra as massas.

No Rio de Janeiro, a favela, como berço efervescente da cultura popular, manifesta por exemplo no samba, é porta-voz de denúncias e protestos humorados e contundentes contra o sistema de exploração e contra a farsa que o legitima, as eleições.

Samba e resistência 

O samba é por si elemento de resistência à cultura das classes dominantes. “Filho bastardo” das raízes do Brasil, negra-africana e branca-portuguesa, o samba foi perseguido em seu surgimento. A partir daí sofreu com sua institucionalização, através da cooptação das escolas de samba pelo velho Estado e pelos monopólios.

Mas ele ainda assim resistiu, na forma do samba malandro, nas comunidades, nas escolas, nos quintais e botequins. Nas palavras do grande sambista Paulinho da Viola: o samba sempre foi negócio de comunidade, de vida comunitária. É a forma de expressão da vida no morro, que é uma comunidade marginal, de marginais, um gueto.1

O protesto “malandro”

José Bezerra da Silva, cantor, compositor e instrumentista, foi um dos principais nomes representantes desse “samba malandro”, carregado de humor e denúncias do sistema e da situação de penúria das massas. Nascido no Recife, foi para o Rio de Janeiro ainda jovem, onde passou fome, indo morar na rua. Pintor, trabalhou na construção civil. Posteriormente passou a residir no Morro do Cantagalo. Como grande percussionista, trabalhou em rádios, mas só começou a gravar com seus 48 anos.

Lançou seu primeiro disco em 1975. E, em pleno período do regime militar, cantava sobre a vida no morro, crimes e drogas. Fazia ainda sambas sobre amor e, principalmente, sambas de protesto. Tecia a crítica social a partir de uma perspectiva de classe.

Safados e corruptos

Elegemos aqui dois grandes sambas gravados por Bezerra da Silva que tratam especificamente da farsa eleitoral.

“Candidato Caô Caô” (Compositores: Pedro Butina/Walter Menin – Bezerra da Silva – Disco: Violência Gera Violência – 1988).

Ele subiu o morro sem gravata,
dizendo que gostava da raça,
foi lá na tendinha bebeu cachaça,
até bagulho fumou,
entrou no meu barracão

E lá usou lata de goiabada como prato,
eu logo percebi é mais um candidato
para a próxima eleição (2x)

Ele fez questão de beber água da chuva,
foi lá no terreiro pedir ajuda,
bateu cabeça no gongá,
mas ele não se deu bem
porque o guia que estava incorporado
disse esse político é safado
cuidado na hora de votar,
também disse, meu irmão

se liga no que eu vou lhe dizer,
hoje ele pede seu voto,
amanhã manda os homens lhe bater.
podes crer (2x)

Ele subiu o morro sem gravata,
dizendo que gostava da raça,
foi lá na tendinha bebeu cachaça,
até bagulho fumou,
entrou no meu barracão

E lá usou lata de goiabada como prato,
eu logo percebi é mais um candidato
para a próxima eleição (2x)

Ele fez questão de beber água da chuva,
foi lá no terreiro pedir ajuda,
bateu cabeça no gongá,
mas ele não se deu bem
porque o guia que estava incorporado
disse esse político é safado
cuidado na hora de votar,
também disse, meu irmão

se liga no que eu vou lhe dizer.
depois que ele for eleito dá aquela banana pra você,
podes crer

meu irmão, se liga no que eu vou lhe dizer
hoje ele pede o seu voto
amanhã manda a polícia lhe prender.
podes crer,

meu irmão, se liga no que eu vou lhe dizer
E depois que ele for eleito não arruma emprego pra você

No melhor estilo de crônica do cotidiano, a música gravada em 1988 ressalta o desmascaramento do político que se aproxima do morro a fim de angariar votos. Denuncia já de início o seu papel de farsante, apenas mais um de muitos outros candidato que sobem o morro. É o pai de santo, que de personagem passa à voz principal da canção, o responsável por alertar todo o povo pobre da favela sobre o político “safado”.

Podemos notar ainda o papel do velho Estado no pós-eleição, o refrão nos traz: “amanhã manda os homens lhe bater” e, ainda, “amanhã manda a polícia lhe prender”. A conclusão a que se chega é de que ao povo resta apenas a repressão indiscriminada.

“O vírus da corrupção” (Compositor: Nilo Bahia – Bezerra da Silva – Disco:  Meu Samba é Duro na Queda, 1996)

Refrão

Ele vai subir novamente lá no morro
Apertando mão em mão, pedindo voto de novo.
A rapaziada já sabe que é o ladrão do dinheiro do povo!
Toda favela já sabe que é o ladrão do dinheiro do povo!

Quando ele está em campanha
Diz que vai resolver toda a situação.
Depois de tá eleito adianta o seu lado
E dá uma banana para o meu povão
Perde a credibilidade, a moral e o pudor
Tira o pão da boca das crianças
Do aposentado e do trabalhador!

Ele vai subir novamente lá no morro
Apertando mão em mão, pedindo voto de novo.
A rapaziada já sabe que é o ladrão do dinheiro do povo!
Toda favela já sabe que é o ladrão do dinheiro do povo!

Na eleição passada,
Através do morro ele se elegeu.
Nada fez pelo pobre favelado
E num boeing de luxo desapareceu.
Foi comemorar a vitória em sua mansão
No distrito federal.
Eu só fui saber que ele estava vivo
Porque saiu como corrupto no jornal.

De norte a sul,
De leste a oeste meu irmão.
Como tem político contaminado
Com o vírus da corrupção! (2x)

Ele vai subir novamente lá no morro
Apertando mão em mão, pedindo voto de novo.
A rapaziada já sabe que é o ladrão do dinheiro do povo!
Toda favela já sabe que é o ladrão do dinheiro do povo!

Neste samba gravado em 1996 novamente temos uma crônica do morro. Nela, ao contrário da canção anterior, não é necessário que se desmascare o farsante, pois “toda favela já sabe”.

E isto reafirma-se copiosamente no refrão. Há já um saber experiente, a canção parece retratar um cenário que se repete constantemente.

E é dito de forma simples e sintética qual é o papel do político, seu crime de classe: “Tira o pão da boca das crianças/Do aposentado e do trabalhador!”. Aqui, o legado do político é a carestia de vida. 

Esse retrato das classes trabalhadoras, residente das favelas, pouco se altera até os dias atuais. A cultura popular permanece sendo a resistência de uma posição de classe, da classe explorada.

No entanto, em um ascenso, a política de repressão e extermínio do povo pobre, o aumento da miséria e da privação provoca cada vez mais o povo a repudiar a farsa das eleições. Convoca-o a tirar suas vendas e a tomar parte nessa luta de classes.


1. COUTINHO, E. G. (2011). Velhas histórias, memórias futuras: o sentido da tradição em Paulinho da Viola. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, p. 144.