encarte-especial-araguaia40 anos do ‘Massacre da Lapa’

Jailson de Souza
Mário Lúcio de Paula

AND nº 182, 2ª quinzena de dezembro de 2016 e 1ª de janeiro de 2017 

“A bandeira da luta ar­mada, que empunharam tão heroicamente e pela qual se sacrificaram os camaradas do Araguaia, deve ser ergui­da ainda mais alto. Se conseguirmos de fato nos ligar às grandes massas do campo e das cidades e ganhá-las para a orientação do Partido, não importa qual seja a ferocidade do inimigo, com toda certeza a vitória será nossa”.

Trecho do balanço de Pe­dro Pomar a propósito da luta no Araguaia apresentado na reunião do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil – dezembro de 1976

Em dezembro de 1976, nu­ma casa de segurança locali­zada na rua Pio XI, no bairro da Lapa, em São Paulo, era reali­zada uma reunião do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil. Se cumpria a seção de conclusão dos debates inicia­dos em julho daquele ano que tinha como tarefa central reali­zar o balanço sobre a Guerrilha do Araguaia. Neste debate se batiam os principais quadros dirigentes do partido, entre eles Angelo Arroyo, enviado pela Comissão Militar como emissá­rio ao Comitê Central – antes do cerco e ataque final do exército reacionário contra os guerri­lheiros – o qual apresentou um relatório pormenorizado da Comissão Militar das Forças Guerrilheiras do Araguaia.

Foi com base nas informa­ções contidas no relatório de Arroyo que o grande dirigente comunista Pedro Pomar for­mulou o balanço apresentado nesta reunião do CC.

Em seu balanço do Ara­guaia, Pomar ressaltou a correta decisão do partido de levar a ca­bo a preparação da luta armada revolucionária e o devotamento e heroísmo dos militantes que não pouparam esforços e sacri­fícios para aplicar tal decisão. Contudo, rigoroso na análise e crítica, afirmava que a derro­ta não fora de caráter exclusi­vamente militar e temporária como apontara Arroyo em seu relatório, mas sim completa, e que a sua principal causa não se devia aos erros e falhas cir­cunstanciais e militares, mas sim a erros de concepção sobre a guerra popular. Ou seja, que o que se aplicou no Araguaia não correspondia essencialmente à concepção e teoria da guerra popular e à sua linha estabeleci­da nos documentos partidários.

Pomar defendeu a justeza da guerra popular e a neces­sidade de compreender as li­ções desta experiência. Em suas conclusões enfatizara que se a direção levasse até ao fundo o balanço crítico destes erros seria capaz de retirar grande aprendizado para levar adiante a Revolução Brasileira através da guerra popular.

É importante ressaltar que, embora apresentassem conclu­sões divergentes, tanto o relató­rio de Angelo Arroyo e o docu­mento da Comissão Executiva quanto o documento redigido por Pedro Pomar são enfáticos em afirmar a necessidade de o partido dedicar-se à maior preparação ideológico-políti­ca e militar, e retomar o mais breve possível a luta armada revolucionária.

Pedro Pomar transbordava otimismo revolucionário em seu balanço. Apesar da du­ríssima cota de sangue derra­mado pelos militantes comu­nistas tombados no Araguaia, incluindo seu comandante e veterano dirigente comunis­ta Maurício Grabois, ademais das massas camponesas. Po­mar estava convencido de que os debates no CC avançavam para uma compreensão mais profunda sobre a experiência do Araguaia, do pensamento mao tsetung (como era desig­nado à época o maoísmo) e da guerra popular.

As atas das reuniões, dispo­níveis em alguns meios na inter­net para consulta, mostram como a luta de duas linhas na direção do Partido Co­munista do Brasil apontava para um importante salto se esta não fosse sabotada pela camarilha hoxhaista de Amazonas.

Cerco e aniquilamento seletivo

Mas esse balanço foi violenta e tragicamente in­terrompido na manhã de 16 de dezembro de 1976. As tropas do II Exército, numa operação conjunta com ou­tros órgãos da repressão do regime militar-fascista, cer­caram a casa de segurança onde ocorria a reunião, a qual já haviam localizado por meio da delação de trai­dores. Alguns dirigentes já haviam se retirado e foram um a um seguidos pelas forças de repressão e pre­sos. João Baptista Franco Drummond, jovem e pro­missor quadro da direção do partido, foi assassinado sob brutais torturas.

O convicto comunista Joaquim Celso de Lima, en­carregado da tarefa de zelar pela casa e de transportar os membros do CC, realizou verdadeiras proezas ao vo­lante para tentar despistar os militares que o seguiam quan­do identificou a presença dos esbirros em seu encalço. Preso, resistiu às mais brutais torturas.

Após a reunião, sem saber que estavam completamente cercados, Pedro Pomar e An­gelo Arroyo permaneceram na casa para seguir debatendo e es­clarecendo suas divergências. Ambos foram covardemente assassinados pela fuzilaria descarregada pelas forças de repressão. Tombaram varados por mais de 50 disparos neste episódio que ficou conhecido como “Massacre da Lapa”.

Para tentar ocultar a cena de massacre, os gorilas do regime militar-fascista montaram uma cena para simular resistência dos dirigentes comunistas. Es­palharam documentos e colo­caram armas próximas aos seus corpos sem vida.

O “Massacre” e a liquidação do PCdoB como partido revolucionário

Com o assassinato seletivo e prisão dos dirigentes revolucio­nários que mais profundamen­te assimilaram o marxismo-le­ninismo e o pensamento mao tsetung, abriu-se o processo de sabotagem e soterramen­to da linha revolucionária da guerra popular e, passo a pas­so, impuseram a linha revisio­nista que conduziu à gradual e completa liquidação do PCdoB enquanto partido comunista revolucionário. Renegando a linha revolucionária da guerra popular, esta direção revisio­nista e oportunista, através do retorno ao caminho eleitoreiro e reformista, deu origem a mais um partido revisionista, sob a continuidade da sigla PCdoB.

Amazonas assentou uma sinistra pedra tumular sobre o assunto da reunião da Lapa impondo a versão de que a que­da do Comitê Central seria res­ponsabilidade de Manoel Jover Teles, membro do CC, que preso e tendo entregado seu ponto para entrada na reunião, teria colaborado com as forças de repressão para guiá-las até a casa de segurança.

Em 1977, realiza-se, ver­gonhosamente, na Albânia, a VII Conferência Nacional do PCdoB. Amazonas e seu ban­do, apoiados no revisionismo albanês de Enver Hoxha como base ideológica, atacam furio­samente o pensamento mao tsetung e a guerra popular, dan­do fundamento teórico para sua vulgar capitulação.

‘O sangue não afoga a revolução, senão a rega’

No 40º aniversário do “Mas­sacre da Lapa”, coloca-se ainda mais urgente e decisiva a tarefa dos revolucionários brasileiros de levar adiante e de forma mais profunda a luta de duas linhas por desmascarar e varrer o revi­sionismo e todo o oportunismo e erguer no mais alto cume a he­roica bandeira dos guerrilhei­ros do Araguaia, dos seus com­batentes e comandantes.