Vinicius Alves

No dia 17/03, fiscais do ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e executivos e funcionários de empresas do ramo alimentício foram presos em decorrência de um grande esquema criminoso para burlar a fiscalização sanitária e comercializar carne estragada a população.

Até o momento não se sabe quais lotes de carne podem ter sido afetados, pois o tamanho do esquema ainda é incerto. Ou seja, não se sabe quantas pessoas podem ter consumido carne estragada.

As prisões são decorrentes da Operação “carne fraca” da Polícia Federal, que mobilizou cerca de 1.100 agentes para cumprir 309 mandados judiciais expedidos pela 14ª vara da justiça federal de Curitiba (PR) em seis estados (Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo) e no Distrito Federal. Os mandados se dividiam em 194 de busca e apreensão, 77 de condução coercitiva e 38 de prisão (27 preventivas e 11 temporárias), sendo 34 deles para funcionários públicos.

A Operação “carne fraca” inspira-se na campanha moralizadora desatada pela Operação “Lava Jato”, que tem o intuito de limpar a imagem das instituições do velho Estado burguês-latifundiário, tão desmoralizado e desgastado pela profunda crise econômica, política, ética e moral que o atinge.

O órgão de repressão do velho Estado, após dois anos de investigação constatou que fiscais do ministério da Agricultura, pertencentes às Superintendências Regionais dos estados de Goiás, Minas Gerais e Paraná recebiam propinas para facilitar a comercialização de alimentos adulterados, emitindo certificados sanitários sem a realização de fiscalização dos frigoríficos, além de falsificar documentos para liberar a carne para exportação para a China, Europa e Oriente Médio.

A investigação descobriu que as empresas utilizavam uma série de práticas ilegais, tais como: o uso de ácido ascórbico para disfarçar o sabor da carne estragada, substância esta que se consumida em excesso pode, a longo prazo, provocar sobrecarga renal e, consequentemente, câncer; a mudança da data de validade; a substituição de carnes nobres por carnes mais baratas e até mesmo farelo de soja na fabricação de salsichas; injetar água na carne para aumentar o seu peso; o uso de papelão no frango, entre outras.

No Paraná, carnes estragadas foram fornecidas a estudantes da rede pública estadual.

Ao todo, 29 empresas foram investigadas, incluindo as duas empresas que monopolizam o mercado de carnes no país e tidas como símbolos de “modernidade” do agronegócio: a BRF e a JBS. A BRF é proprietária de marcas como Qualy, Sadia e Perdigão. A JBS é dona de marcas como Doriana, Friboi, Seara, Swift e Vigor.

A operação resultou na prisão de 20 pessoas, entre elas executivos da BRF e da JBS.

Além disso, três frigoríficos foram interditados: um da BRF, em Mineiros (GO), e dois da Peccin em Curitiba (PR) e Jaguará do Sul (SC).

Um lote de carne da BRF, proveniente do frigorífico de Mineiros, foi barrado na Itália, sendo o motivo a suspeita de contaminação por salmonela, um tipo de bactéria que pode causar diarreia e vômito.

De acordo com as investigações, parte do dinheiro pago pelas empresas destinavam-se a políticos de duas siglas do partido único: PMDB e PP.

Este último – uma das frações do partido único mais afetadas pela Operação “Lava Jato” – é o partido a qual pertence Blairo Maggi, o ministro da Agricultura. Salas deste ministério tiveram diligências de buscas e apreensão pela Polícia Federal.

Em decorrência da operação, Blairo Maggi foi obrigado a mostrar serviço a opinião pública e afastou 33 funcionários do ministério da Agricultura.

O ministro da justiça, Osmar Serraglio (PMDB-PR), teve o seu nome envolvido no esquema criminoso. Serraglio teve uma chamada telefônica sua com Daniel Gonçalves Filho, ex-superintendente do ministério da Agricultura no Paraná entre 2007 e 2016, tido como um dos líderes do esquema, interceptada pela Polícia Federal. Na conversa, o atual ministro da justiça – na época deputado federal –solicita informações a Gonçalves Filho sobre uma fiscalização no Frigorifico Larissa, pertencente a Paulo Rogério Sposito – que foi preso preventivamente pela operação –, no município de Iporã, que estaria tendo problemas com a fiscalização do Mapa. No diálogo, Serraglio chama Gonçalves de “grande chefe”.

Na farsa eleitoral de 2014, as empresas investigadas investiram R$ 393 milhões em 25 siglas do partido único. As frações do partido único que mais receberam “doações” foram o PT (R$ 60,7 milhões), PMDB (R$ 59,1 milhões), PSDB (R$ 58,1 milhões), PP (R$ 38,1 milhões) e PR (R$ 24,4 milhões).

A JBS, uma das empresas investigadas, foi a maior financiadora de campanhas na farsa eleitoral de 2014, com investimentos de R$ 366 milhões – inclusive foi a principal doadora da campanha de Serraglio, com 200 mil reais.

Cabe relembrar que, no gerenciamento de Lula/PT, a JBS com os empréstimos subsidiados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aumentou a sua participação nos mercados interno e externo, adquirindo as empresas concorrentes como, por exemplo, Seara e Swift, monopolizando cada vez mais o mercado e aumentando os seus lucros.