A Operação “Lava-jato”, longe da ilusão que nutre a maioria de seus componentes, é um estratagema para salvar a velha ordem através de passar a ideia de moralização da vida política e pública do país. É a ação preventiva da reação por temor às explosões de revoltas populares dentro de um mundo cada vez mais tormentoso. A crise que o Brasil atravessa é uma crise de Estado, sintomas de uma situação revolucionária em crescente elevação. O que mais temem o imperialismo, as classes dominantes locais e seus grupos de poder é a convulsão social, a revolta e a revolução. O povo precisa e quer uma revolução, pois já sabe muito bem o que não quer e cada dia seu protesto é mais belicoso.

Editorial, AND nº 185

Mediante a gravidade da crise política, o plano da reação é o de servir-se de Temer (já citado mil vezes nas delações) para fazer o trabalho sujo emergencial de aplicar a ferro e fogo todas as maldades contra o povo e a Nação no objetivo de “equilibrar” a economia, dando rédeas soltas à maior exploração dos trabalhadores e saqueio das riquezas naturais do país. A cambada da politicalha logrou introduzir no Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, encarregado de controlar a bomba dos processos da “Lava-jato”, mas nem isto pode salvá-los se não cumprirem os ditames do imperialismo. A crise política já atingiu tal ponto que, quando menos se espera, faz saltar novas denúncias e revelações, atingindo em cheio o simulacro de governo sem legitimidade e autoridade alguma.

Ao final, totalmente queimado, Temer será jogado à sarjeta da política como bode expiatório e alvo da ira popular, porém teria garantido a “retomada do crescimento” ao tornar o país paraíso maior ainda para a banqueirada e demais sanguessugas do nosso povo e da Nação. O establishment do imperialismo, principalmente ianque, calcula assim que, nas eleições de 2018, eleja-se alguém publicitado como honesto e eficiente, como se o mesmo nada tivesse com todos estes crimes e demais bandalheiras, vendendo a ideia de saneamento da política e página virada, com a renovação da credibilidade nas instituições do velho Estado.

Não será tão fácil assim como imagina e trama a reação monitorada pelo imperialismo. Mas nem o imperialismo, nem a cambada da politicalha têm escolha. Como corporação ameaçada, estes não jogarão a toalha e todas as ações só lançarão mais lenha na fogueira da crise e da revolta popular. Já faz tempo que o país foi arrastado para uma guerra civil reacionária, na qual tudo cada vez mais tem solução por meio da violência.

Vejamos que a publicação dos dados oficiais de 2016 sobre a economia do país jogou baldes de água fria sobre as mentirosas publicidades com que governo e monopólios da imprensa vinham se empenhando para gerar um falso otimismo, com o objetivo de mudar as expectativas da opinião pública nacional e, principalmente, dos especuladores a quem chamam solenemente de “investidores” estrangeiros, enquanto governo e congresso correm para aprovar medidas nefandas contra os trabalhadores e em benefício dos exploradores do povo e saqueadores da Nação, descarada e cinicamente sob o pretexto de retomar o crescimento e gerar empregos. Os indicadores sociais são ainda mais duros e desfazem como fumaça toda propaganda petista demagógica de “fim da miséria”.

A grave e profunda crise econômica e social em que se afunda o país, longe de ser mero resultado da “incompetência petista” – como o maniqueísmo da direita tradicional e seu monopólio de imprensa tentam criar consenso, fazendo campanha eleitoral preventiva – , é produto da natureza semicolonial e semifeudal de nosso país, de seu capitalismo atrasado, burocrático, de economia endemicamente enferma. Mais ainda, é a manifestação aguda de sua inevitável crise em meio à avançada crise geral de decomposição do capitalismo imperialista mundial.

É sobre esta base real que se desenvolve a crise política de disputa entre os grupos de poder representantes das diferentes frações das classes dominantes, a qual vinham se gestando ao longo do gerenciamento petista e explodiu em 2015. Para atacar e desgastar o PT e sua frente oportunista eleitoreira, à época de sua eclosão, o PSDB e congêneres seguiram a cartilha de sempre, criando a CPI da Petrobrás. Esta logo foi desmontada pela articulação petista-governista. Mas a crise se aprofundou, pois que a chamada Operação “Lava-jato” entrou em cena e esta se tratava de algo muito mais ambicioso do que as costumeiras e desmoralizadas CPI’s.

Ela obedeceu ao “Plano maior” do establishment e interesses do USA, preocupados com o grau de desmoralização no país que chegara a política oficial e as instituições do “Estado Democrático de Direito”, tão enaltecido como a “democracia” e ideal de sistema de governo. Por trás dela estão mãos muito mais poderosas do que se imagina. Digamos que todo o planejamento das investigações, sua estrutura e método, foram preparados pelo FBI, tendo selecionado setores da Polícia Federal para operarem sob a centralização de alto mando militar das Forças Armadas como operação de fato. Como fachada legal preparou-se equipe de pessoal do Ministério Público “imbuído” da causa da moralização da vida política e pública do país. Senão, como se iniciaria tal plano e, principalmente, como poderia chegar até onde tem chegado? A história política do país conhece inúmeras tentativas semelhantes arquitetadas neste objetivo e que foram aplastadas antes mesmo de dar seus primeiros passos.

A Operação “Lava-jato”, longe da ilusão que nutre a maioria de seus componentes, é um estratagema para salvar a velha ordem através de passar a ideia de moralização da vida política e pública do país, demonizando os políticos e, para tal, lançando ao inferno parte deles, separando-os das instituições dos Três Poderes para salvá-las e renovar nelas credibilidade e legitimidade perante à sociedade, principalmente suas classes médias, formando caldo de cultura conservador e anticomunista. É a ação preventiva da reação por temor às explosões de revoltas populares dentro de um mundo cada vez mais tormentoso. E todos os partidos oficiais de oposição à frente petista, sedentos de votos para usurpar os postos por ela ocupada já há 14 anos, se lançaram demagógica e freneticamente na cruzada anticorrupção, certos de que, como sempre ocorreu, logo se chegaria a um acordão pondo fim à crise. Quando se deram conta que todos eles estariam na mira de tal operação, a crise desandou. A opinião pública revoltada com tanta podridão, principalmente as classes médias, foram as centenas de milhares às ruas exigindo fim da corrupção na vã ilusão disto se realizar. O juiz Moro, que não passa um mês sem visitar o USA, foi elevado à figura de grande patriota, símbolo maior da honestidade e salvador da Nação.

Com o agravamento da crise econômica, a luta entre as frações das classes dominantes se radicalizou na disputa pelo maior controle da máquina estatal. Os interesses nesta luta tomaram conta da crise política que, em sua radicalização, se expressa por meio da luta entre os chamados Três Poderes da República, nos quais seus representantes se acham instalados. Pegar o contendente em flagrante delito e submetê-lo aos rigores da lei (prisões, investigações e processos) é o meio para arrasar politicamente com os partidos ou políticos adversários e, ao tempo que serve para enganar a opinião pública com o conto de que os corruptos estão sendo punidos e assim seguir tudo como dantes no quartel de Abrantes.

A prisão de tanta gente poderosa (coisa inédita no país) é a prova cabal do grau da radicalização da luta entre as diferentes frações das classes dominantes, e sua única explicação. Para se ver até onde tem ido a agudização dessas pugnas, dois fatos envolvendo o PSDB são exemplares. Por sua ação sua situação já se achava muito deteriorada e apontava para uma debacle completa em 2014 (o que vinha sendo uma das principais razões dos êxitos eleitorais do PT). Chegar pelo menos ao segundo turno nas eleições presidenciais de 2014 era questão de vida e morte para o PSDB. E a candidatura de Eduardo Campos tornara-se um obstáculo para que Aécio chegasse pelo menos ao segundo turno e coincidentemente o acidente aéreo que o vitimou surgiu como a solução que deixou caminho livre para ele. Mais recente, a indicação por Temer de Alexandre de Morais (também do PSDB) ao STF para a vaga deixada pelo relator dos processos da Operação “Lava-jato” Teori Zavask morto também em acidente aéreo (e com isto proteger os nomes do PSDB e aliados) tornou-se tão intrigante quanto é idêntico ao caso Eduardo Campos, morte por acidente aéreo, num mesmo tipo de ambiente (litoral, onde as condições  meteorológicas são mais adversas para as operações de voo). Ou seja, situação em que acidentes aéreos podem ser facilmente explicados por estas condições.

Pode-se deduzir também que o impeachment de Dilma não era necessariamente parte do “Plano maior”, já que ela vinha aplicando toda a política ditada pelo imperialismo e que seu staff palaciano, segundo confissões de Delcídio do Amaral, se via beneficiado pelas ações da Operação “Lava-jato” e deixaram-nas correr solto, na medida em que neutralizavam figuras do próprio PT, favorecendo seu fortalecimento enquanto grupo no controle e mando no partido. O impeachment de Dilma se deveu ao agravamento da crise política que agudizou as contradições. Como revelaram gravações telefônicas de Sérgio Machado a Renan Calheiros, nas quais afirma aterrorizado que as delações premiadas dos executivos das empreiteiras (Odebrecht, Camargo Correia, etc.) entregava todo mundo, gente de todos os partidos e que tinha de se fazer parar tal operação e que o meio para isto era aplacar o clamor popular expresso pelas massivas manifestações da classe média. Ou seja, era necessário “dar sangue aos leões”, e como os monopólios de imprensa jogaram água no moinho da direita tradicional culpando o PT por toda situação de crise, desemprego e corrupção no país (quando o PT e seus aliados, como partes deste velho e apodrecido Estado brasileiro, não são mais que mais um dos participantes desta) a ira popular foi lançada contra o PT e o governo Dilma. Daí que o impeachment era só a forma institucional de afastá-la (ainda que para isto tivesse que forçar a barra na configuração de supostos crimes praticados por ela). Porém, o impeachment não aplacou o sentimento anticorrupção e a crise se voltou mais aguda e, principalmente as cúpulas do PMDB e do Congresso passaram-se a alvo central da “Lava-jato”.

Portanto, mais que uma crise do sistema político, a crise que o Brasil atravessa é uma crise de Estado, sintomas de uma situação revolucionária em crescente elevação. A fedentina exalada pelas denúncias e a forma como são tratadas atingem em cheio os ditos Três Poderes da República. Nada escapa às mentes degeneradas dos que fazem parte dos grupos de poder em pugna por se adonarem do controle do velho Estado para servirem à voracidade do imperialismo que os maneja e aos afãs próprios destes grupos e de seus chefes. Suborno, delações pré-fabricadas, mortes suspeitas, e mesmo o conluio para não afundarem todos juntos.

O que mais temem o imperialismo, as classes dominantes locais e seus grupos de poder expressos nas diferentes siglas de direita, centro e “esquerda” do Partido Único é a convulsão social, a revolta e a revolução. As manobras protelatórias promovidas por agentes do executivo, do legislativo e do judiciário, ademais das medidas draconianas contra os direitos do povo, só poderão ter como resultado açular ainda mais a ira das massas. Os milhões de brasileiros que, nas últimas eleições, repudiaram o Partido Único com todas as suas siglas, não aceitam mais o ensebado discurso de uma falsa  polarização entre “direita e esquerda”, tampouco aceitam o discurso da necessidade do seu sacrifício para tirar o país da recessão e da crise. O povo precisa e quer uma revolução, pois já sabe muito bem o que não quer e cada dia seu protesto é mais belicoso.