Redação de AND

Durante a visita da reportagem de AND à região de Pau D’Arco, no Pará, para apurar a chacina de camponeses ocorrida em 24 de maio, colhemos uma série de relatos de moradores da região.

Entre eles, conversamos com um camponês e uma camponesa que denunciaram crimes cometidos pelo latifúndio em numa área em Santana do Araguaia. Os depoimentos transcritos aqui são parte da  Reportagem Especial do jornal A Nova Democracia sobre a chacina de Pau D’Arco.

– A nossa briga é grande, a nossa luta pelo pão de cada dia. E o latifundiário não dá permissão para que a gente possa trabalhar com dignidade. Em Santana do Araguaia nós vivíamos num ‘mundo de horror’, então nós tínhamos que lutar juntos pela reforma agrária. Não é porque vem acontecendo essas coisas (os assassinatos), que os companheiros tombam, que nós vamos desistir. Não, nós não vamos desistir. Em Santana do Araguaia nós vamos levantar a bandeira da reforma agrária, contra o Noé da Pedra Preta, o delegado em Santana do Araguaia é que manda. O Noé manda na justiça em Santana do Araguaia, manda na prefeitura, manda em tudo, e nós não vamos aceitar. Vamos levantar a bandeira e vamos ter a vitória, porque nós juntos venceremos. E outra coisa: a Liga dos Camponeses Pobres está do nosso lado, junto com todo trabalho deles e é por isso que eu falo, nesse momento que nós vamos dar a volta por cima. Nós já fomos despejados muitas e muitas vezes, fomos massacrados por polícia, por palavras, por pistoleiros da fazenda mesmo. Todo trabalho deles é para nos derrubar e nós não vamos aceitar isso. No Pará nós não temos governo, só tem governo na hora de pedir o nosso voto – denunciou a camponesa.

– O que aconteceu no acampamento do Cinturão Verde, em Santana do Araguaia, foi que a gente ocupou uma área que o próprio sindicato dos trabalhadores rurais nos indicou, que tratava-se de uma área de retomada, e que já estava assentada há 26 ou 27 anos atrás. Essa área hoje se encontra na mão de um fazendeiro, que tem de 3 a 4 áreas de reforma agrária, área de assentamento. Zacarias Abreu Glória é o nome do fazendeiro. Fomos despejados sem direito a nada. Nossos barracões foram queimados com tudo dentro. No meu barracão por exemplo foi queimado o meu documento e dos meus filhos, boa parte de nossas roupas. Estou abrigada na casa de amigos porque o incêndio destruiu tudo lá. Agora nós estamos com o apoio da Liga dos Camponeses Pobres, vamos levantar essa bandeira e vamos pra briga! – afirmou a camponesa, que continuou.

– Sobre a questão judicial, o juiz deu o direito de posse para o fazendeiro e no momento estamos brigando pra reverter a situação da posse. Temos provas de que o fazendeiro não é o dono e não pode ser proprietário, porque terra de reforma agrária não pertence a latifundiário. Já fizemos denúncia na DECA (Delegacia de Conflitos Agrários) o que está acontecendo lá dentro. No momento em que tiraram a gente da área, já encheram de pistoleiros. A própria polícia faz o papel de pistoleiro lá dentro e está dando reforço pro fazendeiro, dando tiro, ameaçando, tentando incriminar companheiros, tentando prender. E a situação tá caótica. Estamos pedindo apoio e querendo que alguém veja nossa situação porque a terra lá se trata de uma retomada – concluiu.

Na mesma ocasião, a reportagem de AND também entrevistou “Pelé”, dirigente da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) do Pará e Tocantins, que abordou sobre a luta camponesa.

– Nós da LCP ocupamos a Fazenda Cipó e fizemos várias denúncias falando que a fazenda era do Estado, mas até aquele momento nem Incra nem o Estado queriam concordar com nossa proposta. Com muita luta dos camponeses, muita reunião, muita cobrança e bloqueio de BR (estrada), o Estado aprovou que a Fazenda Cipó, uma parte dela, é terra pública para fazer reforma agrária. Um exemplo: ele tem 830 alqueires e documento [registrava] só de 230 alqueires. Então a parte dos 600 e poucos ele estava grilando. Naquele momento, a pistolagem, a mesma dona que fez o massacre com o povo da fazenda Santa Lúcia, foi quem bateu em gente na fazenda Cipó, queimaram barracos, prenderam gente e nós denunciamos no Ministério Público, na DECA e nenhum deles tomaram providências. Os mesmos policiais que bateram em gente da fazenda Cipó num acampamento nosso, da Liga dos Camponeses Pobres, foi a mesma polícia que fez o massacre na fazenda Santa Lúcia. […]

Para nós esse massacre que aconteceu na semana passada [Pau D’Arco] foi um absurdo, culpa do governo do estado, culpa do governo federal. Hoje nós sabemos que essa fazenda tinha terras do Estado e os camponeses vinham lutando para conseguir elas. O que nos revolta mais é que foi a própria polícia que matou dez trabalhadores que lutavam pela terra. É mentira grande deles, dos jornais, de que foi uma troca de tiro. A polícia pegou os camponeses e, à queima-roupa, executou cada companheiro. Nós sabemos que esse latifúndio, do Norato, dono da fazenda Santa Lúcia, tem mais outras fazendas. O Estado tratou o povo como bicho e nem deixou os familiares zelarem pelos corpos. […]

Nós da Liga dos Camponeses Pobres sabemos que a violência é grande, mas, no país, o povo está fazendo uma Revolução Agrária. E está fazendo Revolução Agrária porque não tem a ‘reforma agrária’ falida do governo, que existe só no papel. E a crise, o desemprego e a fome obrigam os camponeses a ocupar terra. E ocupar terra não é crime, mas sim uma luta por direitos, por terras que o fazendeiro grilou – conclui Pelé.