Cantando a escola e o morro

Pag.18 - Tantinho da Mangueira

Tantinho da Mangueira, da velha guarda da escola, em entrevista ao AND

Rosa Minine, AND nº 184, Nova Cultura

Compositor, intérprete e mestre de partido-alto, Devanir Ferreira, o Tantinho da Mangueira é representante da quarta geração de compositores da escola. Nascido em 1946 na Mangueira, comunidade do Rio de Janeiro, se interessou pelo samba ainda criança, resultando em canções cheias de vivência que remetem a tradição da escola e do morro.

— Meu pai, como os demais membros da família de sua parte, é de Minas Gerais, e acredito que tenham chegado na Mangueira no início do século passado, tendo minha avó chegado primeiro e os demais, depois. Minha mãe é carioca da Tijuca e foi parar na Mangueira possivelmente através do meu pai – conta Tantinho.

— Tive os primeiros contatos com a música ainda menino, bem menino, lá pelo morro, que era uma coisa natural, pois o morro era todo música, em todo lugar que estivéssemos, nos botecos, tendinhas, terreiros, pelas ruas etc. Havia samba, calango, xaxado, baião, partido-alto, bailes pelos clubes locais, boleros, tudo o que se pode imaginar – recorda.

— Meu primeiro encontro foi com o samba, claro, porque mesmo antes do nascimento, já estava em contato com ele no ventre da minha mãe. Ela era baiana da escola, baiana tradicional, imprescindível para a ala na avenida – diz.

Tantinho conta que ingressou na escola de samba do morro sem muito esforço.

— Em 1952, minha mãe comunicou a Neuma, que era a responsável pelas baianas, que naquele ano não poderia desfilar, por não ter quem pudesse olhar por mim. Mas, a Neuma disse: “vai correndo  tirar as medidas da fantasia que o problema do moleque está resolvido e consequentemente o seu”. Minha mãe não entendeu nada, ficou na dela – relata.

— A Neuma chamou o Tinguinha, presidente da bateria, e o Delegado, responsável pelos garotos da bateria, e pediu que providenciassem uma fantasia para mim. E não há nada mais importante para um menino do morro que sair na bateria da sua escola – fala.

— Então ingressei na bateria da Mangueira com seis anos incompletos de idade, e era tido como linha de frente, que para tanto tem que ser considerado muito bom, até porque não havia bateria mirim. Só que de vez em quando eu tinha que me esconder do juiz de menores – lembra.

Do calangueiro José Ferreira, seu pai, Tantinho diz que herdou a vivacidade do improviso, e da baiana da Mangueira, dona Mendes, sua mãe, o gosto pelo samba.

— Só minha mãe desfilava, meu pai era mais chegado ao calango e aos bailes que havia no morro. Tive uma infância na Mangueira muito feliz, alegre, prazerosa, e fui um jovem feliz, passava as noites cantando pelo morro, bebendo, namorando – declara.

Uma vida dedicada ao samba

— Fiquei algum tempo na bateria, mas sentia que não era meu lugar definitivo. Comecei a cantar e as pessoas foram gostando, me incentivando. Passei a compor e fui me projetando na escola. O Cartola, gostando, me convidou para participar de alguns shows interessantes, e me colocou na ala dos compositores – conta.

— E fui seguindo meu caminho, hoje trabalho bastante, viajo sempre, faço meus shows pelo Brasil e fora. O samba é sim uma manifestação musical e cultural da vida das pessoas do morro, mas não mais a única – diz.

O amor que Tantinho tem pelo samba, pelo morro, pela escola é tão parecido que se confunde.

— A Mangueira, o meu amor por essa escola é algo inexplicável, uma paixão avassaladora que muito lamento, porque faz sofrer demais, como toda e qualquer paixão. Amo o samba e gosto de fazer aquilo que sei que faço bem, pois quem paga é porque gosta – afirma.

— E agradeço por ter nascido com vocação para o samba e em Mangueira, afinal, foi onde aprendi o que sei, convivi com os maiores mestres de samba. Sofri influências de muitos sambistas, tanto do passado como contemporâneos, e ainda sofro, principalmente dos natos – fala.

Tantinho não muda seus sentimentos diante de um carnaval cada dia mais comercial, inacessível ao povo.

— Não considero mais o carnaval uma festa popular, do povo para o povo, assim como quase mais nada. Como diz o próprio povo “quem beijou, beijou, quem não beijou não beija mais” – brinca.

Ele faz parte da velha guarda da Mangueira, juntamente com outros sambistas experientes e comprometidos com a escola.

— A Mangueira atualmente, para a felicidade geral, tem apenas uma velha guarda, a velha guarda da escola, que tem sob sua responsabilidade a velha guarda musical. Hoje a velha guarda da Mangueira é única – diz.

Eu, Nelson Sargento e Rody, somos responsáveis pela parte musical da velha guarda. A velha guarda hoje é coordenada por três baluartes da escola na parte musical – continua.

Em 2006 Tantinho lançou o CD Tantinho, Memória em Verde e Rosa, e com ele venceu o prêmio Rival Petrobras,  na categoria Aval do Rival e o prêmio TIM 2007 de melhor CD de samba do ano.

— Componho letra e música, e tenho alguns parceiros, mas, componho mais sozinho. Minha inspiração é o cotidiano e a Mangueira. E toco percussão, a maioria – relata.

Em 2009 Tantinho gravou seu segundo CD, este dedicado a obra do compositor mangueirense Padeirinho, e com ele conquistou o Prêmio da Música Brasileira como melhor CD de samba e melhor cantor. Além dos trabalhos de samba no morro, na escola, Tantinho atua também em casas noturnas, teatro e rodas de samba por todo o país.  

— Depois do período do carnaval eu trabalho o ano inteiro, às vezes mais, às vezes menos, mas trabalho. Quando convidado para ensinar samba e tradição para crianças, também trabalho nesse sentido. Já propus à Mangueira desenvolver trabalhos semelhantes, como já fiz em Campo Grande, Santa Cruz, Formiga etc. – conta.

Dentre todas as vertentes do samba, Tantinho escolheu o partido-alto para se dedicar mais.

— O que mais me atrai no partido-alto é a divisão, a formação dela, que é onde está a dificuldade maior para se cantar partido-alto. Quem não sabe, dificilmente aprende a fazê-la perfeitamente. É dificílima, é um dom. Além de partido-alto, gosto de samba de terreiro também – finaliza.

tantinhodamangueira.webnode.com  é o contato do artista.

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