Fausto Arruda, AND nº 184, p.3

A dramática situação pela qual passa o estado do Rio de Janeiro pode ser vista através de várias janelas. A primeira mostra a origem do problema com a privatização do erário público e sua incorporação ao patrimônio de Sérgio Cabral e sua quadrilha. As delações oriundas das investigações da “Lava-Jato” apenas são a forma jurídica de revelar aquilo que os protestos desde 2013 já denunciavam em demasia.

A segunda, como ligação imediata da primeira, mostra os servidores públicos nas filas para receberem cestas básicas como se fossem pedintes. Profissionais que deram sua força-de-trabalho por mais de vinte ou trinta anos reduzidos à condição de indigência.

A terceira, mostra os protestos diante da Assembleia Legislativa com os servidores recebendo a única coisa concreta que o gerenciamento Pezão pode lhes dar: bombas de gás lacrimogêneo e tiros de balas de borracha. Tudo para transformar em lei o assalto não só ao funcionalismo como a todo o povo do estado do Rio de Janeiro.

Janelas para o inferno

Numa visão mais panorâmica podemos abrir a janela que dá para a saúde e vamos ver hospitais transferindo doentes na calada da noite para encerrar o funcionamento de setores de atendimento. Podemos ver ainda o hospital pegando fogo diante das péssimas condições de conservação.

Abrindo a janela da educação, temos a sua descrição na palavra de Egberto Moura, sub-reitor de Pós-Graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em denúncia à imprensa local: “As empresas terceirizadas não recebem desde agosto, e aí já estão ameaçando cortar os serviços de limpeza, o serviço de recolhimento de lixo já foi cortado a empresa já anunciou que vai cortar e a questão do restaurante universitário que não consegue funcionar porque não recebeu nenhum recurso”. A UERJ, outrora orgulho do Rio de Janeiro e, ainda, tida como a 5ª melhor Universidade brasileira, está parada uma vez que já adiou várias vezes o início das aulas por falta das mínimas condições de funcionamento.

A chantagem de Pezão

Respondendo aos protestos de servidores diante dos atrasos no pagamento dos salários e os reclamos da população diante da falta de atendimento nos hospitais e a precarização dos demais serviços públicos, Pezão escreveu na mensagem enviada à ALERJ que só haverá dinheiro para cumprir os compromissos do estado com os servidores e com a população se o acordo firmado com Meirelles for aprovado na íntegra. Acordo que inclui o congelamento dos salários dos servidores, a elevação da contribuição previdenciária para 22% e a venda da CEDAE, o que ele considerou uma obrigação “irretratável e irrevogável” com o gerenciamento de Temer.

Impondo esta condição de “ou tudo ou nada” Pezão se esforça para, com sua chantagem, fazer passar na ALERJ um modelo elaborado pelos vampiros Temer e Meirelles para chupar o sangue da população dos demais estados da federação, quase todos em condição de penúria diante da recessão imposta pela famigerada política de ajuste fiscal.

Plataforma para assaltar os estados

As medidas que Temer e Meirelles tentam impor aos estados são nada mais, nada menos do que a extensão para o conjunto do país das medidas elaboradas desde o gerenciamento Dilma e previstas no programa eleitoral de Aécio Neves do PSDB, do qual foram extraídas.

Não podemos deixar de atentar para o fato de que sendo uma imposição de seus amos imperialistas através do FMI e do Banco Mundial, todas as medidas têm como pano de fundo o favorecimento aos bancos. Não bastasse os mais de 900 bilhões de reais transferidos aos bancos na forma de pagamento de juros, nos dois últimos anos, a liberação do saque do FGTS, a privatização de empresas públicas a exemplo da CEDAE como garantia de empréstimos que os estados farão aos bancos, a mudança na legislação previdenciária e trabalhista etc. têm o mesmo fito de jogar água no moinho do sistema financeiro.

Desemprego e quebradeira

No plano mais geral, a trama imperialista executada por Temer-Meirelles trama que está apoiando mais do que nunca a economia na produção primária para exportação (commodities), franqueando toda a terra para o chamado “agronegócio” e as corporações da mineração, empurrando assim ainda mais as massas rurais para as caóticas cidades e aumentando o desemprego, além de extinguir os direitos trabalhistas e previdenciários tem por objetivo, num segundo momento, rebaixar o valor dos salários e a massa salarial dos trabalhadores para aumentar a taxa de exploração do trabalho em prol da ampliação do lucro máximo dos monopólios. No rastro de tais medidas, como de fato já vem ocorrendo, teremos quebradeira das pequenas e médias empresas, o arremate da desnacionalização e desindustrialização, cedendo cada vez mais espaço para o favorecimento e domínio maior ainda do capital transnacional.

Usando o parlamento corrupto e servil e sob as vistas de um judiciário tolerante, o gerenciamento Temer, ao buscar mediar a disputa entre os vários grupos de poder, favorecendo os de cima, caminha a passos largos para um confronto de grande proporção com a maioria do povo brasileiro. Na tentativa de fazer passar suas medidas antipovo e vende-pátria, Temer atiçará mais ainda a revolta dos de baixo.

O campo e as ruas serão o teatro desta batalha.