Comitê de Apoio AND – Norte de Minas 

Fotos: W.Alves

Um espectro ronda o Norte de Minas! O espectro de Cachoeirinha, o espectro das tomadas e retomadas das terras usurpadas dos camponeses em mais de quatro séculos de latifúndio! E hoje mais do que nunca ronda o espectro da Revolução Agrária, que fará justiça aos heroicos resistentes de Cachoeirinha e de todo o Norte de Minas entregando as terras aos camponeses pobres sem terra ou com pouca terra!

O Ato Político em Celebração aos 50 anos da Heroica Resistência dos Posseiros de Cachoeirinha, realizado no dia 27 de junho na Área Revolucionária Vitória/Cachoeirinha ficará por muito tempo marcado na memória de dezenas de ativistas e apoiadores da luta pela terra no Norte de Minas, como mais uma batalha da heroica saga iniciada pelos posseiros na década de 1960 e que persiste, nos dias atuais, sob a direção da  Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Sul da Bahia.

 O encontro de várias gerações para esta celebração, entre eles os remanescentes da histórica resistência de Cachoeirinha e os jovens camponeses, era uma demonstração de consciência sobre a importância que tiveram as batalhas de 1967, como comprovação de que o povo, mesmo em condições desiguais, sempre lutou e resistiu à exploração e opressão, mais ainda, de que guiados por uma direção proletária, os camponeses poderão triunfar definitivamente sobre seus inimigos de classe, através da Revolução Agrária, como primeira parte da Revolução Democrática, ininterrupta ao Socialismo.

Todos os preparativos para o ato foram muito bem planejados e realizados coletivamente, com plena participação dos camponeses das áreas e comunidades de Cachoeirinha (hoje Verdelândia). Desde a organização do local para plenária, a campanha de arrecadação de apoio material, a ornamentação do espaço e a preparação do delicioso e farto almoço.

Estandartes com as fotos do dirigente da LCP Cleomar Rodrigues (assassinado pelo latifúndio em Outubro de 2014), da fundadora do Movimento Feminino Popular Sandra Lima (falecida em 27 de julho de 2016), do companheiro Luiz Carlos Martinho, o memorável “Professor Manoel” (falecido em abril de 2011) que teve papel importante na retomada das terras do Vitoria e atuação destacada na Escola Popular. Além desses grandes herois do povo que tiveram as suas vidas entrelaçadas aos destinos das famílias camponesas de Cachoeirinha, foi reverenciado também o internacionalista Alípio de Freitas (falecido em 12 de junho deste ano), que dirigiu a luta das Ligas Camponesas na década de 50 no Brasil e dedicou uma vida inteira a causa revolucionária.    

Várias organizações populares, democráticas e classistas estiveram presentes: o MFP – Movimento Feminino Popular, a Escola Popular, o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de BH e Região (MARRETA), a FETAEMG – Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais, o Comitê de Apoio à luta pela terra e a Liga Operária que, em seu discurso, conclamou os presentes a fortalecerem a aliança operário-camponesa para fazer avançar a Revolução Agrária e defendeu a necessidade de aumentar o protesto popular contra os ataques aos direitos do povo impostos por Temer/PMDB/PSDB e sua quadrilha.

 Na semana que antecedeu a celebração, o Comitê de Apoio à luta pela terra promoveu panfletagens e palestras junto a estudantes dos cursos de Pedagogia e Geografia repercutiram a importância desta histórica data para todo o povo do Norte de Minas. Entidades, ativistas e intelectuais progressistas que não puderam comparecer ao Ato contribuíram materialmente para a sua realização e enviaram mensagens de apoio e solidariedade às famílias camponesas.

O Comitê de Apoio ao Jornal A Nova Democracia do Norte de Minas contando com a  honrada presença do diretor do jornal, Fausto Arruda, participou do ato, onde também foi vendido dezenas de exemplares da edição 190. Durante a sua intervenção, o companheiro foi muito aplaudido quando, ao mostrar a capa da edição 190 do jornal, anunciou a retomada da Fazenda Santa Lúcia em Pau D`Arco, onde faz poucos dias policiais promoveram uma chacina contra os camponeses. O professor Fausto Arruda explicou a importância de avançar no boicote à farsa eleitoral e na propaganda dos avanços que só a Revolução pode promover em todas as esferas da vida do povo de uma forma geral e do campesinato, em particular, (produção, arte, cultura, saúde, lazer) convocando os presentes a apoiarem ativamente a produção e difusão do jornal, por meio do envio de relatos vivos, imagens e vídeos à redação e a propaganda das edições impressas nas áreas da Revolução Agrária e em todas as comunidades camponesas.

O Grupo de Teatro “Servir ao Povo”, do Para Terra I, cantou a música “Cachoeirinha”, do Grupo Agreste de Montes Claros e o hino do MFP “Lutadoras da Revolução”. O companheiro e artista popular Geraldo Lajeado, da área Vitória declamou seus poemas sobre a luta dos posseiros. A cada intervenção, ouviam-se aplausos e vivas. Toda a atividade transcorreu com um clima de grande entusiasmo. 

Camponeses no auge de seus 70/80 anos, protagonistas das primeiras batalhas contra o latifúndio semifeudal e as hostes policiais assassinas do velho estado entre 1964/1967 comandadas pelo famigerado Coronel Georgino, estiveram presentes na vibrante celebração. Como a companheira “Dona Zuína” mesmo com o peso de seus mais de 80 anos, transbordava energia e otimismo ao relatar as agruras passadas nos primeiros anos da resistência e o valor das primeiras vitórias conquistadas a ferro e fogo, como as retomadas das fazendas Caetité e União na década de 1980.

Muitas falas carregadas de emoção e ódio ao latifúndio, relatavam os crimes ainda hoje praticados e impunes, como o ASSASSINATO do companheiro José Soares Mendes, conhecido como “Zé Gato”, que morreu no início de 2015 em decorrência das sequelas de tiros que recebeu durante o ataque de pistoleiros à fazenda Torta em Cachoeirinha. Mas em nenhum momento da celebração se ouviam lamúrias ou uma gota sequer de arrependimento, pelo contrário, os discursos transbordavam ódio de classe e clamavam por vingança! Em tom altivo e na aparente “calma” típica de nossos bravos sertanejos, os camponeses afirmavam: “não somos de briga, mas…”.

Outro momento marcante foi a exibição do documentário “Memorias da Terra: Resistência de Cachoeirinha”, produzido pelo Coletivo Desneuralizador  a partir de uma visita à Cachoeirinha, em janeiro de 2015, organizada pelo MEPR – Movimento Estudantil Popular Revolucionário de Goiânia. No vídeo, os companheiros Jader e Sula, este com mais de 90 anos, declaram a sua convicção na justeza e necessidade de dar continuidade à luta pela destruição do latifúndio e a entrega de todas as terras aos camponeses pobres sem terra ou com pouca terra.


Os representantes da Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres e da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Sul da Bahia reafirmaram o compromisso de dar continuidade a luta iniciada pelos posseiros em 1967, assumido pela Liga desde a sua fundação no Norte de Minas no ano de 2000 e reafirmado em seu 8º Congresso no ano de 2015, quando o movimento elegeu os companheiros Jader de Paula (Jader) e Ursulino Pereira Lima (Sula), dirigentes históricos da Heroica Resistência dos Posseiros de Cachoeirinha, como Presidentes de Honra da LCP.

A esta velha guarda somaram-se companheiros que nos momentos mais difíceis da luta pela terra, particularmente durante os mais de 13 anos dos gerenciamentos de Lula/Dilma/PT, seguiram com as retomadas, como os camponeses da área Vitoria, Para Terra I, Verde Água, Modelo e tantos outros.  Muitos jovens camponeses participaram da celebração. Companheiros que têm enfrentado a perseguição de pistoleiros acobertados pela PM e a Polícia Civil e que preparam novas tomadas de terra na região estavam presentes. É como a poesia de Bertold Brecht que lemos num cartaz da celebração:

“Nossos inimigos dizem: a luta terminou.

Mas nós dizemos: ela começou.

Nossos inimigos dizem: a verdade está liquidada.

Mas nós sabemos: nós ainda a sabemos.

Nossos inimigos dizem:

mesmo que  se conheça a verdade

ela não pode mais ser divulgada.

Mas nós a divulgaremos.

É a véspera da batalha.

É a preparação de nossos quadros.

É o estudo do plano de luta,

É o dia antes da queda de nossos inimigos.”           

O zum zum zum da Revolução Agrária está ecoando longe e profundo no meio das massas em toda a região e as celebrações dos 50 anos da heroica resistência de Cachoeirinha  anunciam novas tomadas de terras. Ecoa a consigna do 8 Congresso da LCP: Contra crise, tomar todas as terras do latifúndio! Não por acaso, durante a realização do ato, o latifúndio e a PM ao seu serviço ficaram em alerta, pistoleiros circulavam em tom de suspeição pelas estradas e as tropas policiais da cidade foram reforçadas na expectativa de que os camponeses fariam, naquele momento, as novas tomadas.

Todo este ambiente expressa uma situação de fervilhamento da luta pela terra que se estende por todo o país, onde os massacres perpetrados contra os camponeses no intento de aterrorizar as massas camponesas e impedi-las de viver em suas terras, na verdade, o que fazem é agudizar ainda mais esta contradição e  apontar para os camponeses na luta pela sobrevivência, que precisam tomar o destino em suas próprias mãos, pois nenhum governo deste velho Estado poderá ajudá-los e que o sangue dos que tombam na luta faz dela ainda mais justa e exige mais consciência, organização e preparação para enfrentar estes tempos difíceis.

O Ato transmitiu um grande ânimo a todos. Saímos revigorados, pois vimos com os nossos próprios olhos e podemos transmitir aos leitores de AND a certeza de que as sementes da luta pela terra, regadas na década de 1960, pelo sangue dos companheiros Antônio Montes de Brito (Antônio Manso), Marcionílio Gomes Teles, Juarez (Juarez Baiano), Martim Fagundes e Ursino Cardoso (Ursino Preto), brotaram, deram frutos e irão vingar definitivamente com a Revolução Agrária, que por sua vez se justifica cada dia mais  profundamente nos corações e mentes dos que hoje seguem lutando pelo fim do latifúndio.